CAPE EPIC – CRUZANDO A ÁFRICA DO SUL

Eu acredito profundamente que quem participa de uma prova como o Cape Epic é meio maluco. Doido varrido.

Mesmo assim eu incentivo todo mundo a participar e sempre vibro com cada brasileiro lá.

A boa notícia é que depois de dois anos consecutivos cobrindo a prova digo que ela está bem mais civilizada. Em 2008 a contabilidade dos “estragos” ao fim do dia era bem mais cruel. Ainda assim, não espere moleza. São 722 km e quase 15 mil metros de subidas acumuladas.

Entre os dois anos, mais mudanças: um dia a menos de prova, menos quilometragem e a permanência de mais dias em cada vilarejo. Neste ano serão até três noites em cada acampamento e um contra-relógio. Perde muito em charme (acordar cada dia em um lugar diferente), mas para os ciclistas é sinônimo de descanso extra, sempre bem-vindo.

Na última edição, um recorde de brasileiros. Ao todo, éramos 40, contando duplas na corrida, voluntários, imprensa e Epic Trippers. Foi a primeira vez que brasileiros subiram ao pódio do Epic. A maior festa verde-amarela quando Dudu Soares e Daniel Aliperti chegaram em terceiro no master. Até então, a entrega de prêmios durante o jantar era uma cerimônia insossa e quase tediosa, até que “os brasileiros ensinaram ao mundo como é que se celebra”, nas palavras de Terry Kobus, da organização de mídia (o cara que pacientemente nos levava todos os dias para percorrer o mesmo trecho que os atletas – mas chacoalhando confortavelmente em uma Toyota).

Esse ano até a Globo estava lá (mas por razões suspeitíssimas). Veja o vídeo do Esporte Espetacular que causou o maior rebuliço por não mostrar os brasileiros do pódio aqui.

JOGO RÁPIDO

Quanto treinar
A prova será entre os dias 20 e 27 de março. Treino forte específico entre seis e oito meses. É bom ter feito alguma das rotas difíceis no Brasil, como o Caminho do Ouro (Diamantina/Ouro Preto a Paraty) ou o Caminho da Fé, de Tambau a Aparecida, por exemplo. A Serra da Canastra também foi citada como um bom lugar de treinos.

O que levar
Lanterna de cabeça, saco de dormir, cadeados e pouquíssima bagagem, pois você terá que fazer tudo caber dentro de uma única mala. Há serviço de lavanderia todos os dias e o preço não é abusivo.

O que vai comer
Na inscrição já está incluso o café da manhã e o jantar, tudo devidamente apimentado, como manda a culinária local e para desespero de alguns competidores.

O café da manhã é composto por: chafé (um terror), ovos mexidos com lingüiça, pão, queijo, frutas e cereal. O iogurte deles é maravilhoso.

Almoço: barraquinhas no acampamento. Não dá para fugir muito dos chamados Boerewors Roll, um cachorro-quente de lingüiça (apimentada, pra variar, e às vezes com gosto de canela).

Jantar (servido às 18h): macarrão, batata, frango, frango, frango, frango, frutas.

Para dormir
Você até tem a opção de pagar (bem mais) caro e não ficar nas barracas do acampamento, mas, a meu ver, perde o verdadeiro sentido da prova. Além disso, a barraca é confortável e você estará tão cansado que nem vai notar nada mesmo. Escolha uma bem longe dos banheiros. O vai-e-vem à noite é constante.


Vista das barracas. Nada mau.

Com quem ir
Não adianta escolher um parceiro porque ele é muito engraçado, camarada ou pelos belos olhos verdes. No fim das contas, vocês estarão se matando. Já vi muito bate-boca, cara feia, casamentos quase desfeitos na trilha. Tem que ser alguém com o mesmo ritmo, mesmo treino, mesmas condições. A prova já é dura por si só, então não piore. Ninguém termina o Epic em dupla sem ter um companheirismo absurdo: um dia o parceiro não está rendendo muito, no outro dia é você e assim por diante. Essas pequenas diferenças são aceitáveis e normais. Mas se o condicionamento e os objetivos são muito diferentes, com o passar dos dias isso torna-se insuportável.

Quanto custa
Passagem aérea: a partir de US$ 1.200, com a South African Airways. Na minha opinião, uma das melhores companhias aéreas em relação ao serviço de bordo. Você vai até Johanesburgo e de lá faz a conexão. Não se assuste se for parado pela imigração. Eu fui todas as vezes e não vou nem pensar sobre o que eles acham que tenho cara. Cansei de ter o cadeado da mala arrebentado e já deixo tudo aberto.
Inscrição: US$ 3.300 por dupla (a mais simples, para ficar no acampamento). Subiu, pois ano passado estava US$ 2.500. Mesmo assim é barato. Provavelmente eles vão gastar mais do que isso em você, só em massagens nas suas pernas e bunda e curativos nos seus pés (ou o que sobrar deles).

O inventor da moutain bike e seu bigodinho simpático, Tom Ritchey, presença garantida todos os anos

Chegada do último dia das campeãs femininas 2008


Dudu Soares e Daniel Aliperti: primeiro pódio brasileiro no Epic

14

01 2010

Quem escreve e contato

Depois de um pouco de enrolação, finalmente esse blog sai. Um misto de esportes, turismo e muitas histórias recolhidas nessa vida de jornalista. Já saltei de asa delta, voei de balão, nadei com tubarões brancos e entrei em tanques de crocodilos. Participei da primeira corrida de aventura sem nem saber mudar as marchas da bike. Já dormi na casa de desconhecidos que encontrei pelo orkut, aluguei um carro para dormir nele no carnaval de Ouro Preto, acordei em um ferro-velho e peguei caronas na estrada (inclusive um ônibus memorável só com mulheres de presidiários).
Faço parte de uma família absolutamente normal. Um choque.

Tomei banhos “antropológicos” no Maranhão, quebrei o dedo em Paraty pedalando, fiquei à deriva em um barco de pescador quebrado em Arraial do Cabo. Já tentei negociar preço de taxi com um senhor chamado Abdul (sem sucesso, óbvio) e quase congelei cobrindo a ultramaratona Two Oceans. Me perdi em dunas na África do Sul procurando conchinhas e temi ser a última em minha primeira corrida de 10 km – com direito a torcicolo, de tanto olhar para trás contando as pessoas.

Comprei um tênis decente, uma bike e uns três bancos diferentes para minimizar o sofrimento da minha pobre bunda não-calejada. Só tento ser mais rápida quando algum velhinho astuto me ultrapassa. Não dá, e eu finjo que ele é apenas uma ilusão de ótica da minha mente em frangalhos.

Tive experiências de “quase morte” ao fim de algumas pedaladas completamente despreparada e descobri, feliz, que a ressurreição tem sabor artificial de banana – e o carb up, nessas horas, é a iguaria dos deuses.

E o resto, vou contando aos poucos …

PS: Quiser perguntar, xingar, escrever qualquer coisa ou desabafar: marina@corremundo.com.br

05

06 2009